O número que o setor preferia não ver
No primeiro trimestre de 2025, as redes municipais de saúde do Grande ABC Paulista registraram uma taxa média de 23,22% de absenteísmo em consultas e exames. Um crescimento de quase 23% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Esse não é um dado isolado. A taxa média de no-show no Brasil varia entre 20% e 30% dependendo da especialidade e do modelo de atendimento, segundo levantamento da Fácil Consulta publicado em 2026. Em algumas especialidades, especialmente as que envolvem tratamentos crônicos e preventivos, os índices chegam a ser ainda mais altos.
O problema não diminuiu. Está crescendo.
O que está por trás do crescimento
O professor David Feder, da Faculdade de Medicina do ABC, identificou a principal causa: o tempo de espera entre o agendamento e a realização da consulta. Quanto mais longo esse intervalo, maior a chance de o paciente esquecer, desistir ou simplesmente não priorizar o compromisso quando a data chegar.
Esse dado é importante porque desloca a culpa para o lugar certo.
O absenteísmo não é um problema de comprometimento do paciente. É um problema de distância entre o momento do agendamento e o momento do atendimento, sem nenhuma presença da instituição nesse intervalo. O paciente agenda, a clínica some e depois se surpreende quando ele não aparece.
O que o gestor pode controlar
Há um dado que aponta a direção: uma UBS do interior de São Paulo reduziu sua taxa de absenteísmo de 40% para 12,8% em quatro meses com ações de acompanhamento e comunicação ativa com pacientes. O resultado foi documentado pelo Cosems-SP em 2024.
Não houve mudança na estrutura física, nem ampliação de equipe. O que mudou foi o processo de comunicação entre agendamento e atendimento.
Lembretes enviados próximos à data. Contato nos momentos em que o paciente ainda pode reorganizar a agenda. Comunicação no canal que ele já usa, com linguagem que ele reconhece como parte do cuidado.
Simples de descrever. Difícil de executar em escala sem processo estruturado.
O que o crescimento do absenteísmo revela sobre o setor
Quando uma taxa que já era preocupante cresce quase 23% em um ano, o setor precisa olhar para além das campanhas de conscientização e das políticas de multa por falta.
Essas estratégias existem há anos. O absenteísmo continua crescendo.
O que não foi resolvido ainda é a ausência de processo ativo entre o agendamento e a consulta. A maioria das clínicas agenda bem. Confirma mal. E gerencia as consequências das faltas de forma reativa, depois que o horário já se perdeu.
O gestor que entende isso está olhando para o problema pelo ângulo certo. A pergunta não é “como punir quem falta?” mas “o que a clínica está fazendo para que o paciente lembre, priorize e apareça?”.
Essa pergunta tem resposta. Ela só exige que alguém decida parar de deixar o intervalo entre agendamento e consulta sem processo.

